Quando a busca por uma parceria amorosa se torna prejudicial para a saúde mental

Especialista explica como frustrações repetidas podem afetar a saúde emocional e a vida afetiva
A proximidade do Dia dos Namorados costuma intensificar reflexões sobre relacionamentos, mas também evidencia uma realidade cada vez mais comum entre quem busca um parceiro: o desgaste emocional provocado pelos aplicativos de relacionamento.
Conhecido internacionalmente como dating app burnout, o fenômeno descreve a exaustão sentida por pessoas que passam longos períodos tentando construir conexões afetivas por meio de plataformas digitais. Conversas superficiais, expectativas frustradas, encontros desagradáveis e situações como o chamado ghosting — quando alguém desaparece sem explicações — estão entre os relatos mais frequentes.
Uma pesquisa realizada pela Universidade de Flensburg, na Alemanha, publicada neste ano, analisou os aspectos negativos dos aplicativos de relacionamento. Segundo os pesquisadores, características comuns dessas plataformas, como o contato simultâneo com várias pessoas, a aceleração das interações e a falta de compromisso em muitos casos, podem impactar negativamente a autoestima e dificultar a construção de vínculos mais significativos.
O estudo aponta que a chamada fadiga dos aplicativos não deve ser compreendida apenas como uma experiência individual, mas também como um fenômeno social. A repetição de experiências frustrantes, a sensação de descartabilidade e a superficialidade das interações acabam contribuindo para o sofrimento emocional e para o desânimo em relação à busca por relacionamentos.
Para a psiquiatra Danielle Admoni, especialista pela Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP) e supervisora da residência de psiquiatria da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp/EPM), ampliar os espaços de convivência pode ser uma alternativa para quem procura conexões mais compatíveis com seus interesses e objetivos.
“Talvez seja mais fácil encontrar amigos de conhecidos ou frequentar lugares que tenham a ver com a pessoa, como algum curso do interesse dela, a sua igreja, enfim, locais onde ela possivelmente vai conhecer mais gente que tenha a ver com ela, do que nos aplicativos, onde os usuários estão às vezes afim de se encontrar, mas não de ter relacionamentos sérios”, afirma.
Segundo a médica, quando as expectativas são diferentes entre as pessoas envolvidas, a tendência é que a frustração se torne cada vez mais frequente.
A pesquisa também observou que parte dos usuários tem buscado novas formas de interação em redes sociais que não foram criadas especificamente para encontros amorosos. Plataformas como o Instagram, por exemplo, são vistas por alguns participantes como ambientes que permitem conhecer melhor a outra pessoa antes de iniciar um envolvimento afetivo.
Em uma época marcada pela facilidade de acesso e pela multiplicidade de contatos, especialistas destacam que estabelecer conexões profundas continua sendo um dos grandes desafios das relações contemporâneas. Ter mais opções disponíveis nem sempre significa encontrar relacionamentos mais satisfatórios, tornando o cuidado com a saúde emocional uma parte importante desse processo.
