Junho Violeta reforça papel das unidades de saúde na proteção da pessoa idosa

Especialistas alertam que negligência, abuso psicológico e violência financeira podem passar despercebidos por anos
A violência contra a pessoa idosa nem sempre deixa marcas visíveis. Muitas vezes, ela acontece de forma silenciosa, por meio da negligência, do abandono, de ameaças, humilhações, isolamento ou exploração financeira. O tema ganha destaque durante o Junho Violeta, campanha nacional dedicada à conscientização e ao combate aos maus-tratos contra pessoas com 60 anos ou mais.
Além de representar uma grave violação de direitos, a violência contra idosos pode provocar impactos importantes na saúde física e emocional. O Estatuto da Pessoa Idosa garante proteção integral a essa população e prevê punições para casos de abandono, negligência, violência física, psicológica, sexual, financeira ou patrimonial.
Um dos maiores desafios é justamente identificar essas situações. Segundo o médico de Família e Comunidade Dr. Raul Queiroz, da UBS Jardim Valquíria, unidade da Secretaria Municipal da Saúde de São Paulo gerenciada pelo CEJAM, os sinais nem sempre são evidentes.
“A violência contra a pessoa idosa frequentemente acontece de forma silenciosa. Por isso, é importante observar mudanças importantes no comportamento, no estado emocional ou nas condições de cuidado. Nem todo sinal indica agressão, mas merece um olhar atento e, quando necessário, uma avaliação mais cuidadosa”, explica.
Entre os principais sinais de alerta estão o isolamento social repentino, perda de peso sem explicação, descuido com a higiene pessoal, uso inadequado de medicamentos, medo excessivo de determinadas pessoas e alterações significativas de humor.
“Quem acompanha o idoso de perto consegue perceber mudanças que nem sempre são evidentes. Às vezes, a pessoa deixa de participar de atividades que gostava, passa a demonstrar medo ou insegurança, ou apresenta sinais de que não está recebendo os cuidados necessários. Esses aspectos precisam ser observados atentamente”, afirma o especialista.
A negligência segue entre as formas mais frequentes de violência contra idosos. Ela ocorre quando há ausência ou recusa de cuidados básicos, como alimentação adequada, higiene, administração de medicamentos ou acesso aos serviços de saúde. Já a violência psicológica envolve ameaças, humilhações, constrangimentos, manipulações e isolamento forçado, afetando diretamente a autoestima e o bem-estar emocional.
Outro problema recorrente é a violência financeira, caracterizada pelo uso indevido de recursos, bens ou patrimônio da pessoa idosa. Situações como indução à assinatura de documentos, uso irregular de procurações e apropriação de aposentadorias e benefícios estão entre os exemplos mais comuns.
A violência física também exige atenção. Dados apontam que as denúncias desse tipo de agressão cresceram significativamente nos últimos anos, especialmente após o período da pandemia.
Nas unidades gerenciadas pelo CEJAM, a identificação dessas situações faz parte da Linha de Cuidado da Pessoa Idosa. Por meio de consultas, visitas domiciliares e acompanhamento contínuo, os profissionais observam não apenas as condições clínicas, mas também aspectos emocionais, familiares e sociais que podem indicar situações de vulnerabilidade.
Segundo Márcia Paschoaleto, gerente da UBS Jardim Maracá, o vínculo entre equipe de saúde e paciente é fundamental para detectar mudanças precocemente.
“Muitos casos não chegam ao serviço de saúde como uma denúncia formal. O que vemos são mudanças no comportamento, sinais de abandono dos cuidados, dificuldades que surgem de forma repentina ou um isolamento cada vez maior. Isso nos ajuda a perceber quando algo está diferente e a acionar os recursos adequados para proteger esse paciente”, destaca.
Para os especialistas, combater a violência contra a pessoa idosa exige a participação de toda a sociedade. Familiares, vizinhos, profissionais de saúde e serviços de assistência social têm papel fundamental na identificação de sinais e na denúncia de situações suspeitas, contribuindo para garantir mais segurança, dignidade e qualidade de vida durante o envelhecimento.
