Estudo aponta que apneia do sono pode ser classificada incorretamente em até 40% dos casos

Pesquisa internacional mostra que tecnologia de alta resolução melhora a precisão no diagnóstico da doença
Um estudo publicado na revista científica “Sleep Medicine” mostrou que quatro em cada 10 pacientes com suspeita de apneia obstrutiva do sono podem ter a presença ou a gravidade da doença classificadas de forma diferente quando avaliados por oxímetros tradicionais de baixa resolução. A pesquisa reforça a importância da tecnologia utilizada nos exames e levanta discussões sobre possíveis impactos no diagnóstico e no tratamento da condição.
O trabalho científico analisou 9.551 exames diagnósticos de pacientes com suspeita de apneia obstrutiva do sono e comparou os resultados obtidos através de dois tipos de oximetria: uma de alta resolução, capaz de registrar pequenas variações na saturação de oxigênio, e outra simulando o funcionamento de equipamentos tradicionais, que trabalham com arredondamento dos dados.
Segundo os pesquisadores, a diferença tecnológica influenciou diretamente na interpretação dos exames. A oximetria tradicional acabou superestimando índices relacionados à dessaturação de oxigênio e à chamada carga hipóxica, parâmetros importantes para medir a gravidade da apneia do sono.
Na prática, a classificação da doença apresentou divergências relevantes. Em cerca de 40% dos pacientes avaliados, houve diferença no resultado quando utilizado o critério de dessaturação de 3%. Já no critério de 4%, a divergência apareceu em aproximadamente 31% dos casos.
A apneia obstrutiva do sono é caracterizada por interrupções repetidas da respiração durante o sono, provocando quedas na oxigenação e fragmentação do descanso noturno. A condição está associada ao aumento do risco cardiovascular, hipertensão arterial, diabetes, fadiga excessiva, alterações cognitivas e piora significativa da qualidade de vida.
Para o pneumologista Geraldo Lorenzi Filho, diretor médico da Biologix, os resultados reforçam como a precisão tecnológica pode impactar diretamente a conduta clínica dos pacientes.
“A apneia envolve interrupções repetidas da respiração, queda na oxigenação e fragmentação do sono. Ao longo do tempo, isso sobrecarrega o organismo. Um diagnóstico preciso é o primeiro passo para uma conduta adequada — e essa pesquisa mostra que a resolução do oxímetro faz diferença real nessa avaliação”, afirma.
O estudo foi conduzido utilizando dados do Exame do Sono Biologix®, plataforma de diagnóstico domiciliar que utiliza o oxímetro Oxistar™, equipamento capaz de registrar variações mais detalhadas da saturação periférica de oxigênio. Diferente de exames tradicionais realizados em laboratórios do sono, o modelo permite que o paciente faça o exame em casa utilizando um dispositivo portátil.
Segundo os pesquisadores, a maior precisão na captação das variações de oxigênio ajuda a reduzir distorções nos índices utilizados para diagnosticar e classificar a gravidade da doença.
Especialistas alertam que um diagnóstico incorreto pode trazer consequências importantes para os pacientes. Em alguns casos, a apneia pode não ser identificada corretamente, atrasando o início do tratamento. Em outros, a gravidade pode ser superestimada, levando a condutas terapêuticas inadequadas para o perfil real do paciente.
Nos últimos anos, a medicina do sono vem ampliando o uso de tecnologias portáteis e sistemas digitais para facilitar o acesso ao diagnóstico, principalmente diante da alta subnotificação dos casos. Estimativas internacionais apontam que milhões de pessoas convivem com apneia do sono sem diagnóstico formal.
Além dos impactos físicos, a condição também interfere diretamente na qualidade de vida, no desempenho cognitivo, na concentração, no humor e na disposição ao longo do dia. Sonolência excessiva, ronco intenso, despertares frequentes e sensação de cansaço mesmo após horas de sono estão entre os sintomas mais comuns.
Os autores do estudo defendem que a evolução das tecnologias de monitoramento pode contribuir para diagnósticos mais precisos e estratégias terapêuticas mais individualizadas, principalmente em um cenário em que os exames domiciliares se tornam cada vez mais presentes na rotina da medicina do sono.
