Entenda por que o tabu da menopausa ainda atrasa diagnósticos

Especialista explica como a desinformação faz com que sintomas sejam confundidos com estresse ou envelhecimento e defende uma abordagem mais ampla para a saúde da mulher.
A menopausa é uma etapa natural da vida feminina, mas ainda costuma ser cercada por silêncio, preconceitos e informações equivocadas. Embora faça parte do processo de envelhecimento, muitas mulheres passam anos convivendo com sintomas sem associá-los às alterações hormonais características desse período, o que pode atrasar o diagnóstico e o início de estratégias capazes de melhorar significativamente a qualidade de vida.
Ondas de calor continuam sendo o sinal mais conhecido, mas estão longe de representar toda a experiência da menopausa. Alterações no sono, ansiedade, irritabilidade, dificuldade de concentração, fadiga, dores articulares, perda de massa muscular, redução da libido e mudanças na saúde cardiovascular também podem surgir nessa fase. Como muitos desses sintomas são frequentemente atribuídos ao estresse da rotina ou ao próprio envelhecimento, diversas mulheres deixam de procurar acompanhamento especializado.
Segundo a Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia (FEBRASGO), cerca de 35 milhões de brasileiras vivem o climatério ou a menopausa. Apesar desse número expressivo, estima-se que apenas cerca de 20% das mulheres que poderiam se beneficiar da terapia hormonal — quando indicada após avaliação médica individualizada — realizam esse tratamento.
O cenário evidencia a necessidade de ampliar o acesso à informação baseada em evidências e estimular um olhar mais atento para essa fase da vida, que vai muito além do controle de sintomas isolados.
Para a nutricionista, empresária e fundadora da primeira menotech do Brasil, Vanessa Costa, um dos principais desafios ainda é romper a ideia de que o desconforto faz parte, obrigatoriamente, da menopausa.
“Quando a mulher entende as mudanças do próprio corpo e tem acesso a profissionais preparados, ela consegue reconhecer os sinais, buscar o acompanhamento adequado e viver essa transição com mais autonomia e qualidade de vida”, afirma.
Nos últimos anos, especialistas têm reforçado que a menopausa deve ser tratada dentro de um conceito de cuidado integral. Isso significa avaliar não apenas os sintomas imediatos, mas também fatores relacionados à saúde óssea, cardiovascular, metabólica e emocional, já que a queda na produção de estrogênio pode aumentar o risco para diversas condições ao longo do envelhecimento.
Nesse contexto, alimentação equilibrada, prática regular de atividade física, acompanhamento multiprofissional e hábitos saudáveis passam a desempenhar papel importante tanto na prevenção quanto na redução do impacto das alterações hormonais. A educação em saúde também ganha protagonismo ao permitir que mulheres identifiquem precocemente mudanças no organismo e participem de forma mais ativa das decisões sobre seu tratamento.
Outro ponto destacado por especialistas é que cada mulher vivencia a menopausa de maneira diferente. Enquanto algumas apresentam poucos sintomas, outras enfrentam manifestações que interferem significativamente na rotina, no desempenho profissional, na vida social e nos relacionamentos. Por isso, abordagens padronizadas nem sempre atendem às necessidades individuais.
Além dos desafios físicos, a menopausa ainda enfrenta barreiras culturais. Durante décadas, o tema permaneceu restrito ao ambiente dos consultórios médicos, sendo pouco discutido dentro das famílias, nas empresas e até mesmo entre grupos de mulheres. Esse silêncio contribuiu para a perpetuação de mitos e para a falsa percepção de que o sofrimento seria uma consequência inevitável dessa fase.
Nos últimos anos, porém, o assunto começou a ganhar espaço em campanhas de conscientização, pesquisas científicas e iniciativas voltadas à educação em saúde. Esse movimento tem incentivado uma discussão mais aberta sobre o climatério, favorecendo o reconhecimento dos sintomas e reduzindo o estigma associado ao envelhecimento feminino.
Para Vanessa Costa, ampliar esse debate representa um passo importante para transformar a forma como a sociedade enxerga a menopausa.
“A informação baseada em ciência permite que as mulheres façam escolhas conscientes sobre sua saúde e tenham acesso a diferentes estratégias de cuidado. Quanto mais conhecimento, maior a possibilidade de atravessar essa fase com bem-estar e autonomia”, conclui.
Ao estimular o diálogo e combater a desinformação, especialistas acreditam que será possível reduzir o número de diagnósticos tardios, ampliar o acesso ao tratamento quando necessário e garantir que milhões de brasileiras vivam essa etapa com mais qualidade de vida, segurança e protagonismo sobre a própria saúde.
