Saúde

Pesquisa brasileira avança no uso de células-tronco contra complicação pós-transplante

Por Andrezza Barros • 14/06/2026
Legenda: Centro de Tecnologia Celular PUCPR
Foto: PUCPR_Gian Galani

Pesquisa brasileira avança no uso de células-tronco contra complicação pós-transplante

PUCPR_Gian Galani
Estudo aprovado pela Anvisa avaliará terapia inédita para pacientes com DECH crônica resistente

Pesquisadores da Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUCPR) estão à frente de um estudo que pode abrir novos caminhos para o tratamento da Doença do Enxerto Contra o Hospedeiro (DECH) crônica, uma das complicações mais graves associadas ao transplante de medula óssea. A pesquisa acaba de receber aprovação da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) e deve iniciar a fase de aplicação em pacientes em setembro de 2026.

A DECH ocorre quando células do doador passam a atacar tecidos e órgãos do receptor após o transplante. Em sua forma crônica, a doença pode comprometer diferentes partes do organismo, causar limitações importantes na qualidade de vida e elevar significativamente os riscos de complicações e mortalidade.

Embora existam tratamentos disponíveis, parte dos pacientes não responde adequadamente às terapias de primeira linha, especialmente aos corticosteroides. Nesses casos, as opções terapêuticas tornam-se mais restritas, o que reforça a necessidade de novas abordagens.

É nesse contexto que surge o MesenCell, produto biológico desenvolvido pelo Centro de Tecnologia Celular (CTC) da PUCPR. A terapia utiliza células-tronco mesenquimais derivadas da medula óssea e foi criada para atuar na modulação da resposta imunológica responsável pelo desenvolvimento da doença.

Segundo Carmen Kuniyoshi Rebelatto, coordenadora do projeto e responsável técnica do Centro de Tecnologia Celular da PUCPR, a DECH crônica representa um desafio importante para pacientes e profissionais de saúde.

“Esses pacientes frequentemente necessitam de internações prolongadas e de tratamentos intensivos, o que sobrecarrega o sistema de saúde e compromete significativamente a qualidade de vida desses pacientes”, explica.

O estudo envolverá 20 pacientes com DECH crônica resistente aos tratamentos convencionais. Os participantes serão acompanhados em três centros de referência do Paraná: o Complexo Hospital de Clínicas da Universidade Federal do Paraná (UFPR), o Hospital Erasto Gaertner e o Hospital Nossa Senhora das Graças.

O protocolo prevê a administração de três doses do MesenCell em intervalos semanais, com monitoramento clínico durante 12 meses após a primeira aplicação. O principal objetivo da pesquisa é avaliar a segurança e a tolerabilidade da terapia em humanos.

A expectativa dos pesquisadores é sustentada por resultados anteriores obtidos com uma tecnologia semelhante baseada em células-tronco mesenquimais. Estudos prévios conduzidos pela equipe apontaram taxa de resposta global de 80%, incluindo 50% de remissão completa dos sintomas.

Além disso, foram observadas respostas expressivas em manifestações cutâneas, gastrointestinais e na cavidade oral, além da redução da necessidade de medicamentos imunossupressores em parte dos pacientes acompanhados.

Os impactos potenciais da nova terapia vão além dos benefícios clínicos. Caso os resultados sejam confirmados, o tratamento poderá contribuir para reduzir internações prolongadas, diminuir complicações associadas à doença e aliviar custos relacionados ao atendimento desses pacientes no Sistema Único de Saúde (SUS).

“Esta iniciativa busca transformar uma inovação tecnológica em uma alternativa terapêutica concreta para uma condição de manejo clínico complexo”, destaca Carmen Rebelatto.

A pesquisa recebeu financiamento da Financiadora de Estudos e Projetos (Finep), com investimento superior a R$ 5,6 milhões para a realização do estudo clínico, além de recursos do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), destinados às etapas pré-clínicas da investigação.

O projeto coloca a pesquisa brasileira em posição de destaque na área das terapias avançadas e amplia as perspectivas para o desenvolvimento de tratamentos inovadores voltados a doenças inflamatórias e imunológicas de alta complexidade.

Andrezza Barros
Sobre o autor
Andrezza Barros
Andrezza Barros (Niterói, 21 de abril de 1995) é uma jornalista, colunista e entrevistadora do entretenimento.
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