Retatrutida pode ampliar nova geração de tratamentos contra obesidade e diabetes

Estudo publicado na Lancet aponta perda de até 28% do peso corporal com medicamento ainda em análise
Uma pesquisa publicada na revista científica The Lancet colocou a retatrutida entre as principais apostas da nova geração de medicamentos voltados ao tratamento da obesidade e do diabetes tipo 2. Os resultados apresentados mostraram que pacientes tratados com a dose mais alta da substância perderam, em média, 28,3% do peso corporal após até 80 semanas de acompanhamento, índice considerado um dos mais elevados já registrados em estudos clínicos desse segmento.
Os dados foram divulgados durante o congresso anual da Associação Americana de Diabetes (ADA), realizado nos Estados Unidos, e reforçam resultados preliminares que já vinham sendo acompanhados pela comunidade médica e científica. O medicamento ainda aguarda aprovação das agências regulatórias internacionais e segue em desenvolvimento clínico.
Além da perda de peso, os pesquisadores observaram melhora em condições frequentemente associadas à obesidade, como apneia obstrutiva do sono e osteoartrite de joelho, ampliando o interesse em torno da substância.
Para a endocrinologista e PhD Alessandra Rascovski, autora do livro “Atmasoma – O equilíbrio entre a ciência e o prazer para viver mais e melhor”, os resultados reforçam uma mudança importante na forma como obesidade e doenças metabólicas vêm sendo tratadas nos últimos anos.
“São drogas e inovações científicas que podem revolucionar as próximas gerações, evitar o surgimento de doenças, melhorar a qualidade de vida e aumentar a longevidade”, afirma.
O diferencial da retatrutida está justamente em seu mecanismo de ação. O medicamento pertence à mesma categoria de substâncias utilizadas em medicamentos como Ozempic, Wegovy, Mounjaro e Zepbound, mas atua de forma mais ampla no organismo.
Enquanto medicamentos como a semaglutida simulam apenas o hormônio GLP-1, relacionado à saciedade e ao controle glicêmico, a retatrutida atua como um agonista triplo, imitando três hormônios intestinais diferentes.
“A semaglutida imita o hormônio GLP-1, que influencia nossa sensação de saciedade e está presente em todos esses medicamentos de controle de obesidade e diabetes. Mas a retatrutida, no entanto, que é um agonista triplo, simula mais dois hormônios, o GIP, que melhora a secreção de insulina após uma refeição, e o glucagon, que aumenta o nível de glicose no sangue contrapondo-se aos efeitos da insulina”, explica Alessandra Rascovski.
O estudo de Fase 3 envolveu pacientes com obesidade e osteoartrite de joelho, todos com índice de massa corporal igual ou superior a 35 e sem diagnóstico de diabetes. Durante 68 semanas, os participantes receberam aplicações semanais da substância ou placebo.
Entre os pacientes que utilizaram a dose mais elevada da retatrutida, a perda média chegou a 32,2 quilos, equivalente a aproximadamente 28,7% do peso corporal.
Os resultados chamaram atenção principalmente por superarem os índices observados com medicamentos atualmente disponíveis no mercado. Para comparação, a tirzepatida, presente em Mounjaro e Zepbound, apresenta perda média próxima de 25%, enquanto o Wegovy, baseado em semaglutida, registra reduções médias inferiores a 20%.
Assim como acontece com outros medicamentos dessa categoria, os efeitos colaterais mais relatados foram gastrointestinais, incluindo náuseas, diarreia e desconfortos digestivos. Segundo análises divulgadas na imprensa internacional, essas reações apareceram com frequência um pouco maior em comparação a Wegovy e Zepbound, mas dentro do perfil considerado esperado para esse tipo de tratamento.
O avanço dessas pesquisas também reforça uma mudança importante na forma como a obesidade passou a ser encarada pela medicina contemporânea. Mais do que uma questão estética, a condição é reconhecida atualmente como uma doença crônica associada ao aumento do risco cardiovascular, diabetes, doenças articulares, distúrbios do sono e outras complicações metabólicas.
Embora a retatrutida ainda não esteja disponível comercialmente, especialistas avaliam que os resultados apresentados até agora ajudam a ampliar as possibilidades terapêuticas futuras e reforçam o movimento de desenvolvimento de medicamentos cada vez mais direcionados ao controle metabólico e à perda de peso de forma prolongada.
